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Maharaj Amar Bharti Naga baba

Naga sadhu yogi tapasya Maharaj Amar Bharti

Maharaj Amar Bharti, the immortal.

 

Falar de Maharaj, como ele é respeitosamente chamado por seus devotos e amigos, não é tarefa simples. Poderia dizer que se trata de um personagem saído de contos extraordinários.

 

Mestre da Krya Yoga, sua prática principal é a tapasya do Urdhva Bahu (austeridade do braço levantado para o céu). Escolhida por ele, data da era de profunda espiritualidade, conhecida como Satya yuga, a era da verdade, se referenciando a um alinhamento do corpo, da fala e da mente. Neste período, propício à práticas espirituais, uma linhagem de iogues realizava atos extremos, com o intuito de descobrir ainda mais as profundezas da mente. Alguns deles, por exemplo, tinham como prática manter-se de pé ao longo de vários anos, outros levantavam os dois braços por décadas, outros sentavam ou deitavam-se em camas de pregos.

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Maharaj é um sadhu ou baba (iogue) respeitado, de uma gentileza inerente. Desde que comecei a fotografá-lo, durante a Maha Maha Khumba Mela de 2001, nos tornamos amigos. Graças a ele, mergulhei ao longo de 16 anos no universo dos sadhus, e tive a graça de morar 6 meses em seu refúgio, nas montanhas do Himashal Pradesh, no meio do Himalaia indiano. Uma vivência inesquecível.

 

Quem encontra Maharaj Amar Bharti pela primeira vez, inevitavelmente se depara com seu braço erguido com a mão mortificada na posição do mudra da figa. As unhas crescem em espirais e todos os dias, após o banho, sua mão é coberta com cinzas do dhuni, fogueira sagrada. Sua prática simboliza a vitória da mente sobre o corpo, mas raras são as pessoas que conseguem enxergar o iogue além de seu braço levantado, pois para isso, é preciso abertura e um olhar profundo.

 

Os anos de convivência me possibilitaram entender que os ensinamentos surgem quando se está disposto a observar e aprender. Inicialmente, meu olhar era um misto de julgamento e fascinação. Quando me deparei com um eu crítico, esses pensamentos desmoronaram e deixaram de fazer sentido. Aberto, comecei a enxergar Maharaj além do seu braço, um universo, e os aprendizados vieram à tona.

 

Amar Bharti foi fotografado por milhares de pessoas, especialmente durante os festivais. Para mim, foi um presente o contato pessoal privilegido e único sobre sua vida. Aproveito esse site para compartilhar uma fatia dessa expêriencia.

A imerção de 16 anos no mundo dos Nagas sadhus foi realizada em parceria com a antropóloga Lena Tosta (PhD) e resultou em sua tese de doutorado, sob o nome de:

Iogues Dissidentes. Pedagogia de uma (in)disciplina emancipatória.

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KUTI - o refugio

No ano 2000, Amar Bharti aceitou o convite feito pela comunidade do vilarejo de Jarad para sentar no Khuti, ​​refúgio.

Maharaj não buscava fama. Foi viver em um pequeno vilarejo,

onde predomina a agricultura familiar.

De modo geral, a vida dos sadhus tende a ser bastante regrada e, para os não itinerantes, é raro sair de seus refúgios, a exceção dos festivais.

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Snaan não é apenas um banho, é uma prática de purificação realizada antes de passar vibhuti no corpo, as cinzas, que simbolizam o destemor à morte.

Com o avançar da idade, Maharaj passava as cinzas exclusivamente

em sua mão.

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Estudar textos sagrados, astrologia e repetir os 1000 nomes de Shiva, fazia parte de algumas das suas praticas espirituais.

OM NAMO NARAYAN

Eis o mantra recitado para cumprimentar um naga sadhu Shaivites. Em seguida, se toca os pés do guru e apresenta a mão direita para receber uma pitada de cinzas sagradas. O tilak é aplicado na testa, representando a abertura do terceiro olho. Uma vez abençoado, o devoto engole as cinzas recebidas, purificando os kharmas negativos, antes de passar a própria mão no top da cabeça.

Maharaj manifestava generosidade genuína. Recebia oferendas regularmente e não tardava a reencaminhar para quem precisasse, privilegiando crianças e mulheres.

Pelas manhãs acolhia famílias e pessoas que lhe procuravam em busca de conselhos e alguma forma de ajuda.

Por vezes, era procurado para prática de magia, chamada, no universo dos sadhus, de tantra. Nestes casos, as pessoas relatavam ser vítimas de feitiçaria. Por duas ocasiões, tive a oportunidade de ver algo bizarro, usado na prática de tantra, raízes que cresciam pêlos e garras.

Dattatreya é a deidade principal ligada ao Juna akhara, ordem monástica shaivist da qual Maharaj fazia parte. A deidade é representada com uma vaca e 4 cachorros em volta dele, simbolizando os 4 Vedas (Rig, Yajur, Sama e Atharva), textos sagrados e pilares da religião hindu.

O cachorro Badal, que Maharaj resgatou, era para ele uma manifestação da deidade. Mas a presença do animal, muitas vezes vista como impura na religião hindu, mesmo associada a Dattatreya, não agradava todos que frequentavam o Khuti, refúgio da comunidade rural que o Maharaj ocupava. Tempos depois, soube que o Badal havia sido envenenado.

Sevak Bharti posa com o jhola, confeccionado com o objetivo de vendê-lo, afim de continuar sua jornada. Jhola é uma pequena bolsa usada exclusivamente pelos Nagas sadhus, com uma infinidade de compartimentos secretos para poder esconder dinheiro, charas (haxixe) ou, às vezes, pedras preciosas.  É uma obra de arte feita a mão, que demanda semanas para ser criada. Se antigamente sadhus eram amplamente sustentados pela sociedade indiana hindu, hoje, nesta era de kali Yuga, as coisas se tornaram mais complicadas e os sadhus precisam ser criativos para atender suas necessidades.

Gopal Giri, como seu nome indica, é de outra sadhu parivaar (família), porém da mesma sampradaya (tradição disciplinar sucessória transmitida por um mesmo guru) que Sevak Barthi. Na foto acima, podemos ver ele preparando o charas. A resina da cannabis é coletada esfregando a planta, que se gruda nas mãos para depois ser retirada e formar uma bola. Naga sadhus são grandes consumidores de charas, emulando Shiva, que consumia sob a forma de Bhang, pasta feita com as flores da planta, que a Deuse Parvati preparava para ele. No universo dos sadhus, o consumo da planta não é vista como algo recreativo, mas sim para alcançar outros estados de consciência.

 

Ainda hoje na Índia, o bhang é amplamente consumido também por leigos durante o festival de Shivaratri.

Em 2001, durante a Maha Maha Khumba Mela, conheci Datta Bharti. Horst, seu antigo nome alemão, chegou a Índia de bicicleta e acabou sendo iniciado pelo irmão de Maharaj, o Hari Bharti.

 

Na ocasião do festival Shivaratri, com Datta Bhart, Hari Bharti e Lena Tosta, fiz uma peregrinação de Himachal Pradesh, onde está localizado o refúgio deles, para Girnar, no Gujarat.

Em 2006 , junto com Datta Bharti e Lena Tosta, visitei Maharaj em Jarad.

Apesar de não ser sadhu "Pandit-Ji" foi, durante décadas, o fiel assistente do Maharaj. Com muita devoção ele praticava guru seva (servir o guru).

Essa tigela, feita de uma variedade especial de coco, na qual Amar Bharti comia e bebia, tinha poderes especiais segundo ele. Caso alguém tentasse envenenar-lo, a tigela se quebraria imediatamente.

Todos os dias, no fim de tarde, Amar Bharti, com uma mão precisa e delicada, confeccionava velas feitas com algodão, usadas durante o ritual do Aarti, literalmente: a remoção da escuridão. Um meio para conectar com o divino.

AARTI

É uma prática central para adeptos do hinduísmo, destinada a fazer oferendas e entrar em união com Deus. O som (soprando em uma concha), flores, incenso, água perfumada e o fogo são elementos essenciais nessas oferendas. O fogo, elemento principal, se torna um médium para conectar com as divindades. Ele é muitas vezes usado para fusionar, neste caso o “material/seres humanos” com o imaterial, Deus. No final do aarti, o sacerdote passa no meio das pessoas presentes, com o prato carregando as velas. Cada pessoa deposita uma moeda como oferenda e passa suas mãos em cima das velas acesas, trazendo simbolicamente a Akash, a qualidade do divino dessa luz abençoada, para o topo de suas cabeças, em outras palavras, para suas mentes. No sistema da yoga, o fogo não é realmente necessário para aquele praticante de tapasya, como o Maharaj, prática que tem por objetivo acender o fogo interno, o fogo que leva o praticante da escuridão para a luz, da ignorância para a sabedoria.

No universo do sadhu, assim como em outros sistemas monásticos, se come uma única vez por dia. Amar Bharti, tinha por costume comer em torno de 22h30 e quem convivia com ele também se adaptava a essa rotina.

Depois de eu ter passado tanto anos na Índia, confesso que nunca comi tão bem quanto na companhia de sadhus, que valorizam comer alimentos frescos e de qualidade, ainda mais por terem como vizinhos produtores rurais.

Khumba Mela em Haridwar 2010

9 anos depois ter encontrado Maharaj pela primeira vez, durante a Maha Maha Khumba Mela de 2001, em Allahabad, e ter passado longos períodos com ele no vilarejo de Jarad, eu e Lena Tosta estávamos o reencontrado, desta vez, em Haridwar. Foi um momento muito importante dentro do contexto do trabalho que estávamos desenvolvendo com ele.

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Ao longo dos anos descobrimos a importância de termos recebido de Maharaj um nome de batizado, pois ele nos possibilitou abertura para entrarmos em tendas, refúgios e cavernas de outros sadhus do mesmo akhada. Muitos dos sadhus já sabiam que estávamos sob a tutela de Amar Bharti e sempre fomos recebido com evidente respeito, assim como "discípulos" dele.

A khumba mela é um momento único para quem quer  percorrer o caminho de sadhu (o caminho reto). É quando os novos shishya (discípulos) são iniciados ao universo dos naga sadhus. Depois de prontos, após dias de preparações e rituais, todos aguardam a hora H do shahi snaan, banho dos reis, nas águas de Ganga Maa, momento de purificação de seus kharmas passados, aspirando, a partir daquele instante, se dedicar inteiramente ao caminho espiritual. Na foto, os shishya, de cabeça raspada, estão sob a tutela de seus novos gurus, Amar e Hari Barthi (na foto à esq. de Maharaj), seu irmão de parivaar (família).

Até 2018 eram apenas 4 sadhus na Índia a praticar a austeridade de Urdva Bahu.

No meio dos sadhus, circula muitas coisas, não sempre saudavél; e muita gente, não sempre bem-intencionadas. Ouvi em varias ocasiões relato de pessoas, tanto indianos quanto estrangeiras, que acabaram em situação muito desagradável. Por vezes relato de pessoas que foram abusadas e/ou drogadas por bandidos disfarçados de sadhus. Na foto acima, Amar Bharti acolheu e cuidou de um rapaz (na dir. dele) que tinha chegado em um estado preocupante. Fico sentado ali por 3 dias sem se mexer.  Maharj achava que ele tinha tomado datura, uma semente alucinógena que Shiva usava e que lhe deu essa cor azulada. Extremamente tóxica, ela deixa a pessoa totalmente fora de si por dias, sendo que alguns pessoas não retomam da viagem alucinada.

Agravando a situação daquele jovem, os organizadores do festival, acharam por bem pulverizar DTT no meio dos acampamentos, para acabar com os mosquitos, mas, em verdade, asfixiando a todos. Kali Yuga nas veias.

Durante a visita de um amigo sadhu, foi aceso o maior shilum que vi ao longo de 16 anos de encontros com babas.

Quando combinamos de ir na Khumba mela de Haridwar, Maharaj tinha me pedido de trazer uma ampliação de uma foto que fiz dele, durante a Maha Maha Khumba Mela de 2000. Segundo ele, estava, naquela hora, em estado de samadhi (união do eu com a totalidade). Imprimi a foto ao chegar em Nova Delhi, antes de embarcar no trem para Haridwar.  Ele a posicionou bem atrás dele durante o mês em que ficamos ali, antes de doa-la para discípulos que tinham vindo de longe para lhe-encontrar. Foi com certeza para mim um momento incrível, pois foi a primeira vez que fazia uma exposição com uma foto, que teve literalmente milhões de pessoas que podiam avista-la.

Último Chilum com Maharaj

Em novembro de 2018, após um trabalho no Nepal, contava com alguns dias na Índia. Resolvi então fazer uma visita ao meu amigo. 8 anos já haviam passados desde nosso ultimo encontro em Haridwar. Entrei no kutia com o tradicional OM NAMO NARAYAN!

Fui pedir as benções, tocando os pês dele e receber as cinzas sagradas de seu dhuni. Foi com muita alegria que Maharaj me recebeu.

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Ele estava longe de imaginar que de repente iria aparecer na porta de seu refugio. Eu não estava mais com o numero de telefone dele e por isso sem poder avisar de minha chegada. Encontrar sadhus conhecidos pode as vezes se tornar uma coisa frustrada, por ser pessoas itinerantes e sem nenhuma garantia que encontrará eles em tal ou tal lugar, e ele não era exceção. Foi uma loteria de sair de Delhi e fazer essa longa viagem de ônibus, na esperança que lhe encontraria em Jarad. Me alegrou muito de ter dado certo e talvez não era por a caso.

 

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Quando encontrei Amar Bharti em 2000, ele sempre brincava e dizia, quando alguém lhe-perguntava se podia tirar uma foto, e respondia: “ek filam, ek shillum” [um filme, (em outra palavra, foto”), um shillum (caximbo)”. A luz estava mágica! Eu até pensei que teria adorado ter uma luz dessa na época que morrei com ele. Mas naquela época, não havia janela, apenas um pano para impedir a poeira de entrar para dentro. Mas o momento que tinha era o agora, é pedi para ele se eu podia fazer um retrato, aquele que esta no topo dessa pagina que esta lendo. Sem faltar, Maharaj me repondi: “ek filam, ek shillum”. Aquele momento uma coisa muito sútil aconteceu entre nós dois, foi como se esse retrato seria a foto que encerraria esse trabalho de tantos anos, registrando a vida desse ser para lá de especial.

No 20 de Novembro 2022, após uma pneumonia resistente, Maharaj Amar Bharti Naga Baba entrou nirvana.

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