




Em 1998, durante minha terceira viagem pela Índia, em meio ao borbulho cultural, percebi que algumas das pessoas tinham uma aparência diferente da maioria de outros hindus. Isso me chamou atenção. Visualmente me pareciam pessoas muito simples. Vestiam-se com tecidos sem costura, predominantemente laranja, como um xale, e utilizavam um pano (langoti) para cobrir uma parte de suas pernas, amarrado por um cinto de lã bordada, que me parecia muito especial. Alguns estavam com o corpo coberto de uma coisa cinza, lhes conferindo uma aparência de um ser de outro mundo.
Cinzas Sagradas
Cinzas Sagradas

Depois de uns meses em viagem, a caminho da majestosa região de Chomolungma, mais conhecido como Mount Everest, no Nepal, encontro um rapaz que me fala de um dos maiores festivais hindus, a Khumba Mela, que aconteceria em Haridwar, na Índia. Seguimos a jornada juntos e decidi acompanhá-lo até o festival.

Quando finalmente chegamos a Haridwar, deparei-me nesta multidão, ...
...com uma concentração inimaginável do povo que havia me despertado tanta curiosidade ao longo dos anos. Descobri que eram chamados de sadhus, e especialmente de naga sadhus.

No final do mesmo ano, encontrei a antropóloga, Lena Tosta, que se empolgou com a ideia de juntar a fotografia com a antropologia, uma disciplina permeando a outra. Foram 10 anos de pesquisa, mergulhados no fascinante universo dos Nagas sadhus Shaivistes. Essa pesquisa culminou na primeira tese de doutorado no mundo sobre essa tradição (Iogues Dissidentes, uma (in)discipline emancipatoria) . Uma parte desse trabalho recebeu o prêmio “Pierre Verger” pela academia de antropologia Brasileira (ABA).



Nagas sadhus tem por particularidade, cobrir seus corpos com cinzas sagradas: Vibhuti, simbolismo da impermanência.

Na linhagem dos nagas sadhus shaivists, os renunciantes fazem voto de Bramachari, o celibato, simbolizado pelo langoti, um espécie de fio dental feito de corda e de um pedaço de pano.




Alguns sadhus, usam como Vibhuti, as cinzas dos campos de cremações, onde passam uma grande parte de seu tempo, contemplando a fragilidade desta encarnação humana.
Dentro da tradição dos naga babas shaivists, eles fazem parte de uma ordem de iogues extremos, os Aghoris. São descendentes da tradição kãpãlika (os portadores de crânios) do século IV.
Esses iogues raramente são encontrados e realizam praticas extremas, como ingeri veneno, substâncias que alteram a consciência e meditação em cima de cadáveres e, ritualmente, podem comer carne humana.

Jap mantra faz parte das praticas diárias. É a repetição de silabas correspondentes a vibrações que trabalham aspectos sutis do corpo e da mente. Como encontrar a frequência certa para ouvir um canal de rádio, o mantra tem o poder de sintonizar a mente e o corpo.
Tradicionalmente, uma vez iniciado, o noviço segue seu guru por 3 anos, período no qual irá servi-lo e ser introduzido a sua nova vida de renunciante.

Durante suas vidas, sadhus deixam o cabelo crescer de forma emaranhada, imitando o deus Shiva, o grande iogue . O tamanho de seus dreadlocks lhes confere uma certa respeitabilidade relacionada ao tempo de caminhada espiritual rumo ao nirvana, a liberação da vida cíclica condicionada. É também uma lembrança do desapego mundano e da ilusão do mundo fenomênico.


O Himachal Pradesh é certamente um dos estados da Índia, mais frequentados pelos sadhus , quando não estão em grandes festivais, como a Khumba Mela. É uma região sagrada, com vários pontos incontornáveis de peregrinação pelo hindus e, especialmente, pelos seguidores de Shiva.


Renunciantes dedicados, não raro, abandonam a vida material e caótica das cidades, em refugio no alto das montanhas, como o Nepali Baba (baba é um outro nome para sadhus), que escolheu uma caverna de Khir Ganga para se retirar da vida mundana e praticar yoga.
Khir Ganga é conhecido por suas águas termais quentes e pelo fato de que Shiva, o grande iogue, lá se dedicava a meditação e tapasya (austeridade).
Essas práticas são a base do Juna Akhada, a ordem monástica que será o foco deste trabalho.

Gangotri, juntamente com Yamunotri, Kedarnath, e Badrinath, faz parte de uma rota de peregrinação incentivada pelo governo indiano na segunda metade do século XX, chamada Chota Char Dham, as 4 pequenas moradas dos deuses.

Para sadhus , essa rota é conhecida a muito tempo, especialmente por aqueles que caminham até Gaumuk ou Tapovan.

Gaumuk, onde o rio celestial sai da boca do glaciar, é conhecido no meio dos sadhus por ser o lugar onde Shiva recebeu Ganga-Maa (o Ganges) no seus dreadlocks, amortecendo a sua chegada na terra. Para os hindus é muito mais que um rio sagrado, é uma deusa, a Mãe Ganga.

O sadhu Vyas Giri, percorre essa trilha há anos.
Ele permanece em uma tenda durante os meses em que a neve lhe permite e acolhe os poucos peregrinos que se aventuram, oferecendo chá quente, comida e o pouco de espaço que resta. Vyas Giri é também um formidável jogador de xadrez.

A rota continua através a moraine - depósitos de rochas, terra e detritos deixados pelo movimento e recuo das geleiras - até chegar em uma das fontes do Ganges, Tapovan a 4,463 m.

Quando chegou o momento do maior festival do pote, a Maha Maha Khumba Mela, os iogues que vivem nas montanhas e florestas, deixaram seus refúgios para participar e reencontrar suas sampradayas, famílias de ascetas, na qual cada um pertence.


